Quando julgamos o próximo e lhe apontamos algum defeito, nasce a partir daí, um dever moral nosso, pois no momento que identificamos uma falha e a entendemos como tal, temos a responsabilidade de não cometer o mesmo deslize.
Entretanto, quem de nós nunca incorreu em uma falta repreensível, ou como poderemos saber que estando naquela mesma situação em que nosso irmão se encontra, sofrendo das mesmas pressões, não faríamos exatamente igual ou senão pior?
Na verdade, na maioria das vezes que nos deparamos dentro de uma discussão, em que nossos ânimos se encontram exaltados, e nos pegamos apontado o dedo para o nosso irmão, o acusando e levantando a tona seus defeitos, estamos também, nos igualando a ele, ou, até mesmo em situação pior, pois, se nós mesmos repreendemos condutas indevidas, a lógica a ser seguida é não tomarmos as mesmas atitudes e ao contrário, darmos o exemplo agindo de forma diversa.
O Evangelho Segundo o Espiritismo em seu Capítulo X itens 9 e 10 intitulado como “O argueiro e a trave no olho” trata justamente do ato de julgar o próximo sem, contudo, olharmos para nossas próprias atitudes, a seguir:
9. Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? - Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro ao teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas, tirai primeiro a trave ao vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão. (S. MATEUS, cap. VII, vv. 3 a 5.)
10. Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes de vermos o mal que está em nós. Para julgar-se a si mesmo, fora preciso que o homem pudesse ver seu interior num espelho, pudesse, de certo modo, transportar-se para fora de si próprio, considerar-se como outra pessoa e perguntar: Que pensaria eu, se visse alguém fazer o que faço? Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos, tanto morais, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente. Caridade orgulhosa é um contra-senso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria? Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso.
Entretanto, sabemos que somos imperfeitos e que ainda precisamos subir muitos degraus para alcançar a plenitude moral, contudo, se formos ainda que em pensamento, levados a refletir sobre a conduta alheia, e não pudermos nos desvencilhar dessa idéias, que tentemos pelo menos o exercício da alta reflexão, imaginando se nós mesmos não caímos ou se não incidiríamos na mesma falta.
É realizando essa autocrítica que poderemos evitar muitos choques, além de conseguirmos visualizar nossos próprios defeitos, obtendo assim, a oportunidade de corrigi-los a tempo.
Ainda sobre o mesmo tema, a seguir um trecho do texto "Perdão das Ofensas" publicado por Tereza Cristina D'Alessandro de Ribeirão Preto, SP para o Jornal Verdade e Luz Nº 185 de Junho de 2001:
(...)Censuras, observações, superstições, preconceitos, opiniões, informações e influências do meio, ou mesmo de instituições diversas, formaram em nós um tipo de reservatório moral - coleção de regras e preceitos - a ser rigorosamente cumprido, do qual nos servimos para concluir e catalogar as atitudes em boas ou más.Utilizamos este reservatório moral para julgar as pessoas, desconsiderando um aspecto muito importante: julgar uma ação é diferente de julgar a pessoa.Como estabelecer esta diferença?Utilizando a regra de ouro ditada por Jesus: Fazer ao outro o que queremos seja feito para nós, ou seja, usar a empatia, colocando-nos no lugar do outro, "sentindo e pensando como ele" em vez de "pensar a respeito" e teremos o comportamento ideal frente aos atos e atitudes alheios.Uma das ferramentas básicas para alcançar o perdão real, é conseguir manter uma certa "distância psíquica" do problema, ou da discussão, bem como diálogos mentais, que giram constantemente no nosso psiquismo, por estarmos engajados emocionalmente em envolvimentos desequilibrantes.Em muitas ocasiões, elaboramos interpretações exageradas de suscetibilidade e caímos em impulsos estranhos e desconexos que dificultam o perdão, somente desligando-nos da agressão ou do desrespeito ocorrido é que o pensamento sintoniza com faixas superiores, no processo denominado "renovação da atmosfera mental" ou "mudança de sintonia".É necessário portanto desligar "mentalmente" e emocionalmente, de fatos ou pessoas em desequilíbrio e a prece, é sempre método eficaz, a restaurar os sentimentos de paz e serenidade. Desligar-se não é tornar-se frio, insensível, e sim, deixar de alimentar-se das emoções alheias.Ao soltar-se dessas situações problemáticas, complexas, o ser humano desata-se de fluidos envolventes, liberta-se de conflitos, tendo chance de enxergar o outro, ou a vida com visão mais ampla, conseguindo compreender a si mesmo e aos outros.Viver impondo "distância psicológica" às pessoas e as coisas problemáticas, sejam entes queridos difíceis, ou companheiros complicados, não significa que deixamos de nos importar com eles, de amá-los, mas sim viver sem nos desequilibrar pelas emoções dos outros. Além disso, esse desligamento, motiva ao perdão do coração, com maior facilidade, devido ao grau de libertação mental que nos induz a viver sintonizados com a nossa própria vida.A ausência de mágoa e o esquecimento da ofensa é que estabelecem a diferença entre o perdão dos lábios e o perdão do coração. E não podemos nos esquecer que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, muito mais que pelas palavras.Nossa meta é aprender a não nos sentirmos ofendidos, e aprender a perdoar é uma das etapas deste processo.
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